A discussão sobre proibir a escala 6×1 e reduzir a carga horária semanal voltou com força e, em 2026, entrou de vez no radar do Congresso como prioridade. O motivo é simples: o tema mexe com a rotina de milhões de trabalhadores e, ao mesmo tempo, com o “motor” de operação de setores que precisam funcionar quase todos os dias, como comércio, serviços, indústria, segurança patrimonial, saúde, logística e atendimento ao público.
Só que existe um detalhe importante, que muda totalmente a conversa: no Brasil, a jornada máxima semanal e o repouso semanal remunerado estão amarrados na Constituição e em regras infraconstitucionais. Então, não é apenas uma “tendência”, é um debate legislativo que, se avançar, exige planejamento de transição, renegociação de escalas, revisão de banco de horas, dimensionamento de equipe, e principalmente, controle de jornada bem feito para evitar passivo trabalhista.
A seguir, você vai entender o que está sendo proposto agora, em que estágio está, como poderia funcionar na prática, quais impactos são mais prováveis, e quais alternativas as empresas podem adotar sem perder o controle da operação.
Primeiro, o que é escala 6×1 na prática
A escala 6×1 é o modelo em que a pessoa trabalha seis dias e folga um, dentro de um ciclo semanal. Ela é muito comum quando a empresa precisa abrir aos sábados e domingos, ou manter operação contínua com revezamento de equipes.
Na prática, esse modelo costuma ser usado para distribuir a jornada semanal de até 44 horas, com variações como:
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8 horas de segunda a sexta e 4 horas no sábado, ou
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7h20 por dia durante 6 dias (para fechar as 44 horas).
O ponto mais sensível não é a escala em si, é o combo: muitos dias consecutivos, fadiga, mais chance de erro operacional, mais dificuldade de conciliar vida pessoal, e, em alguns ambientes, risco maior de acidentes quando a gestão de pausas e limites vira “gambiarra”.
O que a lei atual diz sobre jornada, descanso e intervalos
Hoje, a Constituição estabelece, como regra geral, jornada de até 8 horas por dia e 44 por semana, e também garante repouso semanal remunerado, preferencialmente aos domingos.
Na CLT, aparecem os pilares práticos que costumam gerar passivo quando a empresa opera “no limite”:
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Repouso semanal de 24 horas consecutivas (o famoso DSR).
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Intervalo intrajornada (refeição e descanso) quando a jornada passa de 6 horas.
Em outras palavras, a escala 6×1 existe no cotidiano porque é compatível com a lógica constitucional de 44 horas semanais, desde que a empresa respeite descanso, intervalos, limites de horas e regras de compensação.
O que está sendo proposto em 2026, e por que isso virou prioridade
Em 2026, o debate ganhou tração com propostas que, em resumo, buscam duas coisas:
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aumentar o descanso semanal mínimo (na prática, empurrando o país para modelos como 5×2 ou 4×3), e
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reduzir a jornada máxima semanal, sem redução de salário, com transição gradual em algumas propostas.
Pelos canais oficiais, o tema foi colocado como prioridade do governo para 2026, e há sinalizações de tentativa de acelerar o andamento, inclusive com discussão de unificação de propostas para tramitar com mais força.
PEC 148/2015, no Senado: redução para 36 horas e dois dias de descanso, com transição
Um dos textos mais citados no momento é a PEC 148/2015, que está pronta para votação em Plenário e prevê redução progressiva até 36 horas semanais e aumento do descanso mínimo semanal, com implementação gradual ao longo de anos, conforme descrito em materiais do Senado.
PEC 8/2025, na Câmara: 36 horas e organização 4×3
Na Câmara, a PEC 8/2025 aparece vinculada à reorganização da semana em formato 4×3 e ao debate do fim da escala 6×1, com movimentações registradas na tramitação da proposição.
Um ponto que pouca gente percebe: não é só “acabar com a 6×1”, é redefinir a engenharia de operação
Na prática, proibir 6×1 não significa que “ninguém mais trabalha fim de semana”, significa que o descanso mínimo semanal muda e a jornada máxima muda. Isso obriga empresas a redesenhar turnos, revezamentos e cobertura de horários com mais inteligência.
Quantas pessoas isso pode afetar, e por que o impacto é grande
Em números de mercado de trabalho, o Brasil fechou 2025 com recorde de trabalhadores com carteira assinada no setor privado, com estimativa na casa de dezenas de milhões, segundo divulgação do IBGE.
E estudos acadêmicos e notas técnicas ligadas ao tema indicam que uma mudança constitucional de jornada teria impacto direto sobre uma parcela grande da força de trabalho, com destaque para trabalhadores formais, e ainda poderia produzir efeitos indiretos sobre informais que seguem jornadas parecidas.
Além disso, o próprio debate no Senado tem citado pesquisa indicando percepção forte de melhora de qualidade de vida com jornadas menores.
O que pode acontecer com empresas que hoje operam em 6×1
Aqui é onde o RH e o DP precisam ser extremamente pragmáticos. O impacto não vai ser igual para todo mundo. Ele tende a variar conforme cinco fatores:
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Quanto a operação depende de fins de semana (varejo, shopping, alimentação, hotelaria, portaria, vigilância, saúde).
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Se existe pico de demanda em horários específicos (atendimento, call center, logística de expedição).
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Se a empresa trabalha com turnos (manufatura, centros de distribuição, operações 24×7).
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Se já há banco de horas ou compensações bem estruturadas, ou se é tudo “manual”.
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Qual é a maturidade do controle de jornada, porque o risco de passivo cresce quando você mexe em escala sem rastreabilidade.
Impactos mais prováveis na prática
Sem prometer cenário fechado, porque depende do texto final e de regras de transição, os impactos mais comuns tendem a cair em três blocos:
1) Custo e dimensionamento
Se a empresa precisa manter a mesma cobertura de horários com menos horas por pessoa e mais dias de descanso, pode ter de contratar, ou redistribuir equipe, ou aumentar produtividade por hora. Setores empresariais já levantaram preocupação com custo e repasse em preços, justamente por conta da necessidade de cobertura operacional.
2) Redesenho de escala e risco de “erro de conformidade”
Quando a empresa tenta manter o mesmo funcionamento “só encaixando folga aqui e ali”, costumam aparecer problemas como:
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descanso semanal mal concedido,
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extrapolação de limites,
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intervalo intrajornada irregular,
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hora extra virando regra,
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banco de horas sem acordo válido,
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divergência entre folha e ponto.
Esses erros normalmente explodem no fechamento do mês e, pior, viram passivo trabalhista.
3) Mudança cultural e produtividade
Existe um argumento recorrente, de que menos horas pode significar menos produção. Só que a literatura e experiências internacionais colocam um contraponto: quando a redução vem com redesenho de processos, corte de desperdícios e foco em resultado, muitas organizações mantêm produtividade e ganham em retenção, absenteísmo e bem estar.
Relatórios de referência sobre testes de semana reduzida apontaram manutenção de produtividade e ganhos em indicadores como burnout, faltas e retenção, desde que a implementação venha acompanhada de gestão e organização de trabalho, não apenas “compactar a semana”.
E a própria OIT tem discussões e evidências sobre a relação entre horas e produtividade, incluindo o risco de produtividade cair quando o tempo anual de trabalho cresce demais acima de certos patamares.
Quais alternativas podem substituir a 6×1, sem travar a operação
Se a escala 6×1 for restringida ou inviabilizada pelo novo marco, as empresas tendem a migrar para combinações. As mais comuns, do ponto de vista de operação e cobertura, são:
1) Escala 5×2, com ajustes de sábado e domingo por revezamento
É a “cara” do que muita gente imagina: dois dias de descanso por semana, preferencialmente sábado e domingo, mas com equipes revezando para manter a operação. Em empresas que abrem aos fins de semana, isso normalmente exige:
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equipes A e B para revezamento,
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planejamento de folgas com antecedência,
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métricas de cobertura de horários,
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regras claras de domingo e feriado (pagamento ou compensação conforme o caso).
2) Escala 4×3, mais rara, mas possível em algumas áreas
A escala 4×3 costuma exigir maturidade alta de processos. Ela pode funcionar bem em áreas com trabalho por demanda, times enxutos, backoffice, tecnologia, atendimento com agendamento, ou setores em que dá para redesenhar a forma de produzir.
Onde costuma dar errado: operação de balcão com fluxo imprevisível e sem automação, ou ambientes com dependência de presença constante e sem margem para reorganizar.
3) Turnos e revezamentos estruturados, para operação contínua
Em indústria, logística e saúde, muitas empresas já vivem de turnos. O caminho, em geral, é estruturar:
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cobertura de turnos com limites e descansos,
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matriz de revezamento,
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gatilhos de reforço em pico,
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controle rígido de hora extra, porque hora extra constante vira custo invisível e risco trabalhista.
4) Banco de horas e compensação, mas do jeito certo
Banco de horas pode ser solução, ou pode virar bomba, depende do desenho e da rastreabilidade. Em qualquer cenário de mudança de jornada, o banco de horas tende a aparecer como ferramenta para acomodar sazonalidade, cobrir ausências e lidar com picos.
Só que aqui entra o ponto mais importante: se o controle é frágil, o banco vira discussão de “quem deve o quê”, e isso é péssimo para colaborador, gestor e folha.
Como se preparar agora, mesmo antes da aprovação
Independentemente de você ser a favor ou contra, o melhor movimento de gestão é se preparar como se fosse uma mudança de engenharia operacional. Na prática, um plano enxuto e eficiente costuma passar por:
1) Diagnóstico real de jornada
Antes de trocar escala, descubra:
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quantas horas extras por setor, por pessoa e por dia,
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onde há estouro de intervalo,
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onde há falta de descanso bem concedido,
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quais funções concentram mais carga,
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quais horários precisam de cobertura real, e quais são hábito antigo.
Dados do próprio mercado mostram que há muita gente em sobrejornada no Brasil, e esse tipo de diagnóstico normalmente revela isso dentro da empresa também.
2) Simulação de cenários
Simule pelo menos 2 modelos:
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cenário conservador (5×2 com revezamento e mesma carga),
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cenário otimizado (redução de jornada com redesenho de processos).
Aqui, a simulação precisa ser numérica: cobertura, custo, produtividade por hora, necessidade de contratação, impacto em horas extras.
3) Revisão de processos que drenam tempo
A transição costuma dar certo quando a empresa ataca desperdícios, por exemplo:
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reunião sem pauta e sem dono,
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retrabalho por falta de checklist,
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troca de turno bagunçada,
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tarefas manuais que poderiam ser automatizadas,
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falta de padrão de pausas e intervalos.
4) Controle de ponto como “sistema nervoso” da mudança
Se a escala mudar, o controle de ponto precisa ser ainda mais confiável, porque o risco de inconsistência sobe no curto prazo: gestor se confunde, colaborador troca dia, banco de horas começa a crescer, e o DP sofre no fechamento.
É aqui que uma solução de gestão de ponto bem configurada vira vantagem real: ela organiza jornada, evita estouros, consolida banco de horas, facilita auditoria, e entrega relatórios que ajudam o RH a tomar decisão com base em dado, não em sensação.
Na Ponto Tecnologia, esse é exatamente o tipo de cenário em que a empresa ganha previsibilidade: você consegue testar escala, acompanhar impacto em horas extras, identificar gargalos por setor, e ajustar rota antes do problema virar custo ou passivo.
O que muda para o RH e DP, na vida real
Quando a jornada reduz e o descanso aumenta, o RH e o DP geralmente enfrentam três ondas:
Onda 1, adaptação
Aparecem dúvidas, ajustes de escala, pedidos de troca, e o gestor tenta “resolver no WhatsApp”. É a fase em que regras claras e registro correto evitam bagunça.
Onda 2, estabilização
A empresa aprende o novo padrão, mede produtividade por hora, redistribui tarefas, e começa a colher ganhos como queda de hora extra desnecessária e menos falta.
Onda 3, otimização
A organização passa a desenhar jornada como estratégia: melhora retenção, reduz absenteísmo, fortalece clima, e transforma o controle de jornada em ferramenta de gestão, não apenas obrigação.
Então a escala 6×1 vai acabar mesmo?
Hoje, o que dá para afirmar com segurança é:
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o tema está formalmente na pauta do Congresso e foi apontado como prioridade política em 2026,
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existem PECs em tramitação com modelos diferentes (36 horas, 40 horas, aumento de dias de descanso, transições graduais),
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e há debate real sobre impactos, com visões divergentes entre representantes de trabalhadores, governo e setores empresariais.
O texto final, o formato, o prazo de transição e as regras específicas ainda dependem de votação e consolidação legislativa. Por isso, para empresa, a pergunta mais útil não é “vai ou não vai”, é “se mudar, quanto eu demoro para adaptar minha operação sem perder controle?”.
Checklist rápido de ação para empresas com 6×1 hoje
Se você quer sair na frente sem criar alarme desnecessário, siga esta lógica:
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Levante a fotografia atual de jornada e horas extras.
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Identifique setores onde 6×1 é essencial e onde é apenas hábito.
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Faça simulações de 5×2 e de revezamento com dois dias de descanso.
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Ajuste processos que drenam tempo e geram retrabalho.
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Fortaleça o controle de ponto e o acompanhamento de banco de horas.
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Só então redesenhe escala e comunique com regra clara.
Esse caminho reduz risco e evita que a empresa seja pega de surpresa.
Como a Ponto Tecnologia pode ajudar na prática
Se a sua empresa opera em 6×1, ou depende de plantões e revezamentos, o momento é ideal para transformar o controle de jornada em uma ferramenta de gestão.
Com uma solução de gestão de ponto bem configurada, você consegue:
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organizar escalas e revezamentos com mais segurança,
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acompanhar horas extras e banco de horas com rastreabilidade,
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reduzir retrabalho do DP no fechamento,
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gerar relatórios para apoiar decisão sobre contratação e cobertura,
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ter evidências e histórico em caso de fiscalização ou disputa.




